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Os Belard

Genealogia e história de uma família em Belard.pt

São Tomé e Príncipe e a Roça Santa Margarida



São Tomé e Príncipe era, em meados do séc. XIX, um paraíso tropical onde se dizia ser fácil fazer fortuna. Descobertas pelos portugueses em 1470 sem vestígios de qualquer presença humana, só povoadas a partir do reinado de D. João II, as ilhas tinham tido já no séc. XVI uma intensa actividade agrícola e comercial assente na produção de açúcar; mas dois séculos de abandono e desleixo, a partir do momento em que São Tomé deixou de poder competir com o Brasil na indústria açucareira, tinham devolvido as ilhas a um estado praticamente selvagem.

Por volta de 1780, contudo, é introduzido nas ilhas o cultivo do café, que rapidamente se desenvolve graças às especiais características do clima e solo de São Tomé, que chega a permitir quatro colheitas anuais. João Maria de Sousa e Almeida, que viria a ser o 1º Barão de Água-Izé, é uma figura incontornável deste período: nascido na Ilha do Príncipe em 1816, grande proprietário e agricultor, viajou durante anos pela Europa, estudando os grandes centros agrícolas, e no seu regresso a São Tomé e Príncipe, a partir de 1853, revolucionou a agricultura e a economia locais com a introdução da cultura do cacau. O Barão de Água-Izé é considerado um dos quatro introdutores da moderna agricultura em São Tomé e Príncipe, juntamente com D. Francisco de Assis Belard (que começou precisamente por trabalhar para o Barão de Água-Izé), Manuel José da Costa Pedreira e José Maria de Freitas.



Ilha do Príncipe - Vista geral dos Picos. Postal de c. 1910

São Tomé - Praia. Postal de c. 1900

São Tomé - Rua do Espalmador. Postal de c. 1909

São Tomé. Serviçais do Palácio do Governador. Postal de 1907


Uma série de postais coloridos emitidos em 1907, por altura da visita do Príncipe da Beira e herdeiro do trono de Portugal, S. A. R. D. Luís Filipe, mostra bem como era São Tomé no início do séc. XX — e cinquenta anos antes não deveria ser muito diferente.



Outros postais de inícios do séc. XX mostram algumas das muitas roças de São Tomé e Príncipe.





A Roça Santa Margarida




Mapa de S. Tomé, 1902. In Francisco Mantero, "Manual Labour in S. Thomé and Principe", 1910


Pormenor do mesmo mapa, onde assinalei com uma seta vermelha a localização da roça Santa Margarida


Mapa de S. Tomé, 1958, com a indicação mais exacta da roça Santa Margarida. Do site www.tvciencia.pt, 2012 (com os meus agradecimentos à Dra. Maria Leonor Godinho)


Vista de satélite da roça Santa Margarida, 2012. Google Maps in www.nationsonline.org


Vista de satélite mais aproximada dos edifícios da roça Santa Margarida, 2012. Google Maps in www.nationsonline.org


Vista de satélite da roça Santa Margarida, 2020. Google Earth



A roça Santa Margarida foi fundada por D. Francisco de Assis Velarde y Romero (Belard) por volta de 1855. Foi uma das grandes explorações agrícolas de S. Tomé; era constituída por 4 dependências — Santa Margarida, Pedra Maria e S. José, na Madalena, e Maianço, em Santo Amaro, com uma área total cultivada de 810 hectares. Tinha, em 1870, um valor estimado de 18 contos de réis, aproximadamente equivalente a um milhão e meio de Euros actuais (2020), se não me falham as contas.

A roça foi baptizada com este nome em homenagem à filha de D. Francisco Velarde, D. Margarida de Assis de Freitas Belard (1847?-1924), que era adolescente quando o pai se começou a dedicar à agricultura.

Em 1869, D. Francisco de Assis Velarde y Romero (Belard) chamou para São Tomé o seu sobrinho, que mais tarde se tornou seu genro, D. Francisco Mantero (1853-1928), com o qual desenvolveu uma intensa actividade agrícola em Santa Margarida.

Segundo o Dr. Jorge Forjaz, In "Genealogias de São Tomé e Príncipe - Subsídios", 2011, a grande roça Santa Margarida foi herdada por D. Margarida Belard da Fonseca em 1892, após a morte do pai, embora este tivesse outros filhos, inclusivamente varões. Não tenho dados sobre o assunto; o que sei é que a roça Santa Margarida acabou por ser integrada na "Sociedade Agrícola Colonial", fundada por D. Francisco Mantero. Várias pessoas da família foram accionistas dessa sociedade, e algumas participaram activamente na direcção da mesma e na administração da roça Santa Margarida e das outras propriedades de que a sociedade era proprietária; mas a exploração da roça Santa Margarida passou a estar centrada no ramo Mantero da família.

Em 1893 é esta roça que dá o nome ao título de Visconde com que o Rei D. Carlos entendeu agraciar o antigo Governador de S. Tomé e Príncipe, General António Joaquim Gomes da Fonseca (1833-1904), marido de D. Margarida, os quais foram, assim, os 1ºs Viscondes de Santa Margarida.


Não existem, que eu saiba, fotografias da roça Santa Margarida contemporâneas de D. Francisco Velarde. As mais antigas que conheço estão publicadas na obra de Francisco Mantero, "Manual Labour in S. Thomé and Principe"; datam de 1895 e reproduzo-as aqui.


Linha de caminho de ferro privado na roça Santa Margarida. 1895. In Francisco Mantero, "Manual Labour in S. Thomé and Principe", 1910


Estação de carregamento de cacau na linha de caminho de ferro privado na roça Santa Margarida. 1895. In Francisco Mantero, "Manual Labour in S. Thomé and Principe", 1910


Um pouco mais tardia será a única imagem que conheço dos edifícios da roça Santa Margarida e que encima esta página. Repito-a aqui.

Roça Santa Margarida - Terreiros. Postal editado por "A Illustradora", como muitos outros de roças de São Tomé, c. 1910


Recentemente, encontrei dois postais ilustrados modernos com fotografias da roça Santa Margarida. Não estão datados, mas suponho que sejam muito recentes (talvez por volta de 2015?). As fotografias são de Nora Rizzo e os postais são os seguintes:


Roça Santa Margarida - Escada do terreiro


Roça Santa Margarida - Sino da empresa agrícola


Encontrei, também, as duas fotografias seguintes com aspectos da roça Santa Margarida:


Roça Santa Margarida na actualidade (2013)


Roça Santa Margarida - Armazéns. Foto Francisco Nogueira


O livro "Genealogias de São Tomé e Príncipe - Subsídios", do Dr. Jorge Forjaz, publica também uma curiosa planta do Hospital da Roça Santa Margarida, que nos parece, pela planta, à altura dos melhores exemplos de hospitais de outras roças dos quais se conhecem fotografias, com duas enfermarias separadas, uma para homens, outra para mulheres, duas casas de banho também separadas, uma farmácia, um laboratório e outras dependências.


Planta do Hospital da Roça Santa Margarida. In Jorge Forjaz, "Genealogias de São Tomé e Príncipe - Subsídios", 2011, pg. 71


De qualquer forma, para se fazer uma ideia de como deveria ter sido a roça Santa Margarida nos seus tempos áureos basta ver as fotografias das outras roças equivalentes e que se encontram publicadas, por exemplo, na citada obra de Francisco Mantero ou na edição ilustrada de "Equador", de Miguel Sousa Tavares, ou ainda no já referido blog STP ArquitectArte, 2012, que exibe uma curiosa colecção de imagens antigas de várias roças.

Do estado actual da roça Santa Margarida, infelizmente, apenas sei o que vem neste link: Téla Nón - Nacionalização das roças e a reforma agrária. Como todas as outras roças, Santa Margarida foi nacionalizada após a independência de S. Tomé e Príncipe, sem grandes benefícios para os seus moradores, como se pode ver nesse site. Vale mesmo a pena ler o excelente artigo e os comentários ao mesmo para se ficar com uma ideia da actual (2011) situação das roças de São Tomé, e há alguns comentários curiosos que referem expressamente a roça Santa Margarida.

Também tem muito interesse uma página no Facebook, criada por dois arquitectos de Lisboa que estudam a arquitectura das roças de São Tomé, e que pode ser vista aqui: Inventar(iar) As Roças de São Tomé e Príncipe. Tem várias fotografias dos edifícios das roças de São Tomé (e que interessantes são algumas dessas casas!) no seu lamentável estado actual (2012). É pena que quando escrevo estas linhas ainda não exista aí nenhuma fotografia da roça Santa Margarida, mas é natural que vão aparecendo novos elementos. É uma página a acompanhar.

Finalmente, no blog Património de S. Tomé, um trabalho desenvolvido por um grupo de alunos do 12º ano do Liceu Nacional de S. Tomé e Príncipe, existem reproduções de vários postais antigos de São Tomé e centenas de fotografias actuais, a maioria de roças, mostrando bem a sua realidade presente. Pena que estas não estejam legendadas ou pelo menos identificadas...





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